Religião

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segunda-feira, 28 de março de 2011

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados

A sensibilidade é uma peculiaridade humana. Frieza, indiferença, apatia são manifestações daqueles que se permitiram macular pelo mal, e, tendo corrompido a natureza humana, tornaram-se infelizes - desumanos. Os humanos vertem lágrimas, choram suas próprias mazelas, sentem na pele a dor do outro, lamentam e ficam indignados diante da crueldade e injustiça dos tiranos. Os que choram são felizes por conseguirem preservar a sua natureza, sua vocação de ser gente. Neste caso, chorar ou manter a sensibilidade é uma virtude nata. À semelhança da primeira bem-aventurança, chorar é também um estado de alma, uma condição espiritual, um modo de ser do discípulo de Jesus Cristo.


Jesus chorou

Jesus sensibilizou-se várias vezes. Foi sensível ao compadecer-se das multidões como ovelhas sem pastores (Mt 9. 36). Lamentou diante do cenário de indiferença, rejeição e incredulidade do seu povo: “Jerusalém, Jerusalém (...) quantas vezes eu quis te agasalhar como a galinha agasalha os seus pintainhos e tu não quisestes” . Jesus chorou diante dos familiares e amigos de Lázaro. Ele sabia que seu amigo ressuscitaria, portanto não era a morte de Lázaro que ele lamentava. Seu lamento, parece indicar sua sensibilidade humana, quando constata a ausência de Algo mais no coração do público. Neste caso específico, a ausência da fé e manifestação do desespero, a não compreensão da Vida. Lázaro estava vivo, mesmo que o corpo já estivesse em estado de putrefação. Acredito que Jesus ressuscitou Lázaro, muito mais para que pudéssemos entender esse mistério transcendente da vida. Jesus invadiu o mundo oculto de Lázaro e o trouxe de volta, para que os viventes pudessem entender que a vida não se acaba no túmulo. Imagino que Jesus estava chorando o fato de que, os vivos, enquanto choravam seu luto, não tinham sensibilidade para perceber a vida desdenhando da morte.


Com-paixão pela vida
Chorar por chorar não indica felicidade, pode ser apenas uma reação fisiológica, uma descarga emocional. Alguns choram por conta de tristezas, frustrações, decepções; outros por estresse e esgotamento. E mesmo que este não seja o choro referido por Jesus, não estamos condenando ninguém por essas manifestações. Aliás, elas são sinais de que ainda existe um ser humano com vida. Só os mortos não choram mais. Para os vivos, o choro pode indicar uma sensibilidade latente, manifesta por causa de perdas, sofrimento, saudade, indignação com a injustiça; e, viver sem tais sentimentos deve ser motivo de preocupação. Mesmo entendendo o choro natural como um bem que todos possuímos, não é sobre este ato lacrimal que Jesus está se referindo. No Sermão do Monte, chorar é mais do que uma função biológica ou uma reação emocional. A sensibilidade do discípulo é um valor interno, é uma virtude daqueles que se percebem bem pela felicidade de serem portadores da compaixão de Deus. Razão de se manifestarem indignados diante de qualquer ameaça contra a vida.
Sendo um estado de alma, uma virtude permanente, pode-se viver a felicidade a despeito das lágrimas ou da lamentação. O choro que gera felicidade é a com-paixão pela vida. Sem esta com-paixão, gemido que intercede, clamor que busca em Deus o socorro para os fragilizados, o choro é mera descarga emocional. Os discípulos choram e são felizes, porque o choro vem como sinal da humanidade interior redimida. Os discípulos reconhecem suas limitações e consequentemente confessam e arrependem-se de seus pecados. E, na terapia da confissão encontram a alegria de serem amados e acolhidos pelo perdão de Deus.
Pedro chorou amargamente, quando percebeu seu descaso, na ocasião em que negou solidariedade a Jesus Cristo (Lc 22. 62). Se de um lado, sua negação foi uma manifestação da indiferença desumana, por outro lado, suas lágrimas foram um sinal, de que, dentro dele existia um ser humano capaz de lamentar sua fragilidade, chorar copiosamente a sua própria desventura. "Os que choram” desfrutam de uma virtude interior, um modo de ser, que lhes propicia felicidade.

Desventura e esperança
São felizes pela capacidade de amar livremente. E, claro, quem ama, sente pelo outro profunda compaixão. Paulo, referindo-se ao seu cuidado pela igreja em Corinto, expressa esse sentimento como se fosse um processo de gestação da vida de uma parturiente: “Sinto como que dores de parto”. João, o Apóstolo, em sua visão na Ilha de Patmos, mais especificamente na visão do trono de Deus (cap.4 e 5), confessa: "...e eu chorava muito...". Chorava pela sua limitação, por não encontrar ninguém digno de abrir e desvendar as revelações do Livro. Mas, seu choro não parece indicar infelicidade, tristeza, desencanto. Muito pelo contrário, indica o despojamento total de alguém que se percebe pobre de tudo, por encontrar-se diante de um conhecimento excepcional, que João procura decodificar em sua apocalíptica. Seu choro manifesta-se como sinal de uma virtude espiritual, capaz de sensibilizar-se e perceber a presença e atuação de Deus na história. Toda a poesia construída por João apontam para um coração repleto de alegria (Ap 5.1-14). Há subentendido no texto, a consciência de um homem realizado com a vida, a despeito da prisão e isolamento forçado. Suas lágrimas são uma espécie de tristeza última - percepção de contrastes: João denuncia o desencanto consigo mesmo e anuncia a esperança no Cordeiro que desvenda a visão surpreendente (Ap 5. 4-10). Contraste evidente na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Sob o enfoque do Cordeiro que morreu e ressuscitou, João encontra a felicidade de suas lágrimas - “emoção” profunda, cuja sensibilidade abraça o sentido da vida, mesmo que, à margem da sepultura.
Lembremos que o Apocalipse de João foi escrito para explicitar uma experiência anterior ao livro. Portanto, a sensibilidade de João já estava antes do texto. Sua virtude de ser um bem-aventurado, sensível evidencia-se na forma como registra uma apocalíptica de dores e esperanças. Estou tentando explicar, que utilizamos este texto de João, não para interpretar o texto, mas tão somente para falar de um homem que, por desfrutar da bem-aventurança da sensibilidade, consegue chorar sem mágoas e ressentimentos. O choro de João é semelhante ao quebrantamento dos compungidos pelo amor vindo de Deus. Contrição, que é por si mesma, a alegria do discípulo de se perceber perdoado e amado por Deus.


Lágrimas fertilizadas pelo Espírito
Tem mais: O discípulo é feliz não somente pelo acolhimento do perdão, mas também, pela esperança da consolação proveniente de Deus. No caso específico dos homens e mulheres afligidos e perseguidos por andarem com o Messias, em verdade, eles estavam usufruindo da prometida consolação de Israel (Lc 2:25). Entre eles brotava esse choro - "sensibilidade do Espírito" em processo de parto acolhendo a Criança da manjedoura, o Emanuel - Deus conosco. Chora quem alimenta o faminto, agasalha o despido, hospeda o forasteiro; e assim fazendo, está acolhendo o Filho de Deus (Mt 25.31-46).

O choro que gera alegria, bem-aventurança é o pedido em oração capaz de fertilizar o terreno da alma para habitação do Consolador - "Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" (Lc 11.13). E Quem precisa de um Consolador, senão homens e mulheres sob conflitos, perseguições, dores e aflições? Homens e mulheres sensibilizados com as dores dos injustiçados, perseguidos e maltratados? Precisa de um consolador quem chora a saudade da Esperança que ainda vem.

Os que choram estão incluídos no mesmo quadro de referenciais e valores dos profetas. Estão entre as pessoas marcadas pelo batismo do Consolador. Só sente necessidade do Consolador quem realmente chora essa lágrima fertilizada por uma nova vida, por uma "sensibilidade mais profunda" - fôlego do infante que prazerosamente chora a alegria do pós-parto de ter nascido filho de Deus. Sem este fôlego, sopro de Deus, não há choro, não há sensibilidade e não havendo sensibilidade não tem como alguém se perceber feliz.
Os que choram são felizes porque têm, pelo Espírito, a sensibilidade de se colocar no lugar do outro, especialmente dos fracos, aflitos e necessitados. São felizes pela capacidade de amar livremente. E, claro, quem ama, sente pelo outro profunda compaixão. Os que choram alimentam-se das mesmas condições e sensibilidade dos profetas, que movidos pelo Espírito, tinham a felicidade de fertilizar com suas lágrimas os terrenos dos corações aonde semeavam a Palavra de Deus. Tinham sensibilidade e amor pela vida, indignavam-se com a injustiça, lamentavam a dor e o sofrimento impostos aos seres humanos fragilizados (Ne 1.1-3; Lm 1 e sg. ). A despeito de todas as maldades dos desumanos e contradições históricas percebidas pelos sensíveis, os que choram são felizes por serem portadores desta sensibilidade incomum.
Estes que choram como virtude insólita, usufruem da habitação do Consolador e são indubitavelmente felizes. E quanto mais “pneumatizados” pelo Espírito, mais sensíveis se tornam. Essa "sensibilidade do Espírito", a priori a todas as manifestações emocionais; apenas por analogia, pode ser comparada a sensibilidade humana. Mas é de fato, o “gemido do Espírito...” (Ro 8.26-28), que assiste em nossas fraquezas. Assim, quem tem o Espírito, desfruta dessa virtude permanentemente consoladora - "sentimento" transcendente capaz de compungir ao amor, completar e ampliar toda a alegria, realização, bem-aventurança do discípulo de Jesus Cristo - Sensibilidade que permite-se batizar com as lágrimas da consolação.

Escrito por: Carlos Queiroz

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